Quanto nós merecemos?
"Pessoalmente, acho que merecemos
muito: nascemos para ser bem mais
felizes do que somos, mas nossa cultura,
nossa sociedade, nossa família
não
nos contaram essa história direito"
O ser humano é um animal que deu errado
em várias coisas. A maioria das pessoas que conheço, se fizesse
uma terapia, ainda que breve, haveria de viver melhor. Os problemas
podiam continuar ali, mas elas aprenderiam a lidar com eles.
Sem querer fazer uma interpretação barata ou subir além do chinelo:
como qualquer pessoa que tenha lido Freud e companhia, não raro
penso nas rasteiras que o inconsciente nos passa e em quanto nos
atrapalhamos por achar que merecemos pouco.
Pessoalmente, acho que
merecemos muito: nascemos para ser bem mais felizes do que somos,
mas nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não nos contaram
essa história direito. Fomos onerados com contos de ogros sobre
culpa, dívida, deveres e... mais culpa.
Um psicanalista me disse um dia:
– Minha profissão ajuda as pessoas a manter a cabeça à tona d'água.
Milagres ninguém faz.
Nessa tona das águas da vida, por cima da qual nossa cabeça espia
– se não naufragamos de vez –, somos assediados por pensamentos
nem sempre muito inteligentes ou positivos sobre nós mesmos.
As armadilhas do inconsciente, que é onde nosso pé derrapa, talvez
nos façam vislumbrar nessa fenda obscura um letreiro que diz:
"Eu não mereço ser feliz. Quem sou eu para estar bem, ter
saúde, ter alguma segurança e alegria? Não mereço uma boa família,
afetos razoavelmente seguros, felicidade em meio aos dissabores".
Nada disso. Não nos ensinaram que "Deus faz sofrer a quem
ama"?
Portanto, se algo começa a ir muito bem, possivelmente daremos
um jeito de que desmorone – a não ser que tenhamos aprendido a
nos valorizar.
Vivemos o efeito de muita raiva acumulada, muito mal-entendido
nunca explicado, mágoas infantis, obrigações excessivas e imaginárias.
Somos ofuscados pelo danoso mito da mãe santa e da esposa imaculada
e do homem poderoso, pela miragem dos filhos mais que perfeitos,
do patrão infalível e do governo sempre confiável.
Sofremos sob o peso de quanto "devemos" a todas essas
entidades inventadas, pois, afinal, por trás delas existe apenas
gente, tão frágil quanto nós.
Esses fantasmas nos questionam, mãos na cintura, sobrancelhas
iradas:
– Ué, você está quase se livrando das drogas, está quase conquistando
a pessoa amada, está quase equilibrando sua relação com a família,
está quase obtendo sucesso, vive com alguma tranqüilidade financeira...
será que você merece? Veja lá!
Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada falho tiramos o tapete
de nós mesmos e damos um jeito de nos boicotar – coisa que aliás
fazemos demais nesta curta vida.
Escolhemos a droga em lugar da lucidez e da saúde; nos fechamos
para os afetos em lugar de lhes abrir espaço; corremos atarantados
em busca de mais dinheiro do que precisaríamos; se vamos bem em
uma atividade, ficamos inquietos e queremos trocar; se uma relação
floresce, viramos críticos mordazes ou traímos o outro, dando
um jeito de podar carinho, confiança ou sensualidade.
Se a gente pudesse mudar um pouco essa perspectiva, e não encarar
drogas, bebida em excesso, mentira, egoísmo e isolamento como
"proibidos", mas como uma opção burra e destrutiva,
quem sabe poderíamos escolher coisas que nos favorecessem. E não
passar uma vida inteira afastando o que poderia nos dar alegria,
prazer, conforto ou serenidade.
No conflitado e obscuro território do inconsciente, que o velho
sábio Freud nos ensinaria a arejar e iluminar, ainda nos consideramos
maus meninos e meninas, crianças malcomportadas que merecem castigo,
privação, desperdício de vida. Bom, isso também somos nós: estranho
animal que nasceu precisando urgente de conserto.