Quando o homem é uma ilha
"No mais trivial comentário, por que, em lugar
de prestar atenção ao outro,
a gente prefere discriminar, marcando a ferro e fogo
o flanco alheio com um rótulo invisível e ao mesmo
tempo tão evidente?"
Meus assombros de menina: qual era a verdade de cada pessoa, daquelas
que me rodeavam numa casa geralmente alegre? Eu descobrira que
nem sempre dizia o que pensava: e os outros?
Perplexidades adultas: por que nos perdemos tanto? Por que tantos
encontros amigos ou amorosos, e mesmo profissionais, começam com
entusiasmo e de repente – ou lenta e insidiosamente – se transformam
em objeto de indiferença, irritação ou até mesmo crueldade?
Ninguém se casa, tem filho, assume um trabalho querendo que saia
tudo errado, querendo falhar ou ser triturado. Quantas vezes,
porém, depois de algum tempo trilhamos uma estrada de desencanto
e rancor?
No mais trivial comentário, por que, em lugar de prestar atenção
ao outro, a gente prefere rotular, discriminando, marcando a ferro
e fogo o flanco alheio com um rótulo invisível e ao mesmo tempo
tão evidente? "Burro", "arrogante", "falso",
"preguiçoso", "mentiroso", "omisso",
"desleal", "vulgar" – muitas vezes, humilhamos
logo de saída, demonstrando nossos preconceitos sem nos envergonharmos
deles, pois nem nos damos conta.
Parece que não convivemos com pessoas: convivemos com imagens
construídas pela nossa falta de generosidade.
Pergunto a uma amiga pelo seu genro: "Aquele? Cada vez mais
gordo!" Mas talvez eu quisesse saber se ele estava empregado,
se estava contente, se fazia a filha dela feliz.
E nossa amiga comum? "Ah, essa? Irreconhecível, deve ter
feito a milésima plástica na cara, mas os peitos estão um horror
de caídos!" Não me disse se a mulher de quem falávamos se
recuperara da viuvez, se estava deprimida ou já superara o trauma,
se parecia serena ou aflita. Parece que invariavelmente acordamos
com raiva de tudo e de todos. "Sujeito metido a besta",
"professor ultrapassado", "alunos medíocres",
"cantor desafinado", "empresário falido"...
Não vemos gente ao nosso redor. Vemos etiquetas. Difícil, assim,
sentir-se acompanhado; difícil, desse jeito, amar e ser estimado.
Vivemos como se estivéssemos isolados, com o olhar rápido e superficial,
o julgamento à mão, armado: "um idiota", "uma dondoca",
"um fracassado". Quem era, como se chamava, que idade
tinha, se teve filhos, amigos, sucessos, fracassos, de que morreu,
como viveu? É esse tipo de coisa que quero saber quando leio notícias
do tipo "Aposentado morre de infarto na rua", "Idosa
atropelada na avenida", "Mulher assaltada no caixa eletrônico".
Não admira que a gente sinta medo, solidão, raiva mesmo que imprecisa,
nem sabemos do quê ou de quem. Atacamos antes que nos ataquem,
o outro é sempre uma ameaça, não uma possibilidade de afeto ou
alegria.
Todo homem será uma ilha?