A força das palavras
"Viemos ao mundo para dar
nomes às coisas:
dessa forma nos tornamos senhores delas
ou servos de quem as batizar antes de nós"
Palavras assustam mais do que
fatos: às vezes é assim.
Descobri isso quando as pessoas discutiam e lançavam palavras
como dardos sobre a mesa de jantar. Nessa época, meus olhos mal
alcançavam o tampo da mesa e o mundo dos adultos me parecia fascinante.
O meu era demais limitado por horários que tinham de ser obedecidos
(por que criança tinha de dormir tão cedo?), regras chatas (por
que não correr descalça na chuva, por que não botar os pés em
cima do sofá, por quê, por quê, por quê...?), e a escola era um
fardo (seria tão mais divertido ficar lendo debaixo das árvores
no jardim de casa...).
Mas, em compensação, na escola também se brincava com palavras:
lá, como em casa, havia livros, e neles as palavras eram caramelos
saborosos ou pedrinhas coloridas que a gente colecionava, olhava
contra a luz, revirava no céu da boca... E às vezes cuspia na
cara de alguém de propósito, para machucar.
Depois houve um tempo (hoje não mais?) em que palavras eram cortadas
por reticências na tela do cinema, enquanto sobre elas se representavam
cenas que, como se dizia no tempo dos pudores, fariam corar um
frade de pedra.
Palavras ofendem mais do que a realidade – sempre achei isso muito
divertido. Palavras servem para criar mal-entendidos que magoam
durante anos:
–Você aquela vez disse que eu...
–De jeito nenhum, eu jamais imaginei, nem de longe, dizer uma
coisa dessas....
–Mas você disse...
–Nunca! Tenho certeza absoluta!
Vivemos nesses enganos, nesses desencontros, nesse desperdício
de felicidade e afeto. No sofrimento desnecessário, quando silenciamos
em lugar de esclarecer. "Agora não quero falar nisso",
dizemos. Mas a gente devia falar exatamente disso que nos assusta
e nos afasta do outro. O silêncio, quando devíamos falar, ou a
palavra errada, quando devíamos ter ficado quietos: instauram-se,
assim, o drama da convivência e a dificuldade do amor.
Sou dos que optam pela palavra sempre que é possível. Olho no
olho, às vezes mão na mão ou mão no ombro: vem cá, vamos conversar?
Nem sempre é possível. Mas, em geral, é melhor do que o silêncio
crispado e as palavras varridas para baixo do tapete.
Não falo do silêncio bom em que se compartilham ternura e entendimento.
Falo do mal de um silêncio ressentido em que se acumulam incompreensão
e amargura – o vazio cresce e a mágoa distancia na mesma sala,
na mesma cama, na mesma vida. Em parte porque nada foi dito, quando
tudo precisaria ser falado, talvez até para que a gente pudesse
se afastar com amizade e respeito quando ainda era tempo.
Falar é também a essência da terapia: pronunciando o nome das
coisas que nos feriram, ou das que nos assustam mais, de alguma
forma adquirimos sobre elas um mínimo controle. O fantasma passa
a ter nome e rosto, e começamos a lidar com ele. Há estudos interessantíssimos
sobre os nomes atribuídos ao diabo, a enfermidades consideradas
incuráveis ou altamente contagiosas: muitas vezes, em lugar das
palavras exatas, usamos eufemismos para que o mal a que elas se
referem não nos atinja.
A palavra faz parte da nossa essência: com ela, nos acercamos
do outro, nos entregamos ou nos negamos, apaziguamos, ferimos
e matamos. Com a palavra, seduzimos num texto; com a palavra,
liquidamos – negócios, amores. Uma palavra confere o nome ao filho
que nasce e ao navio que transportará vidas ou armas.
"Vá", "Venha", “Fique", "Eu vou",
"Eu não sei", "Eu quero, mas não posso", "Eu
não sou capaz", "Sim, eu mereço" – dessa forma,
marcamos as nossas escolhas, a derrota diante do nosso medo ou
a vitória sobre o nosso susto. Viemos ao mundo para dar nomes
às coisas: dessa forma nos tornamos senhores delas ou servos de
quem as batizar antes de nós.
Lya Luft é escritora